A SABEDORIA DA MADEIRA
( Celso Ferruda)
Como uma semente silenciosa sob a terra, a vida começa no silêncio.
Ali, longe dos olhos, algo se transforma, cresce e prepara-se para romper a escuridão. Talvez a madeira possa nos ensinar justamente isso: como crescer em meio aos conflitos sem perder a essência.
A criança também nasce envolta em silêncio. Nele, desenvolve-se, até que sua primeira manifestação diante do mundo seja o choro. É o primeiro rompimento do silêncio; é a vida anunciando a própria existência.
A madeira cresce. O tronco surge, os galhos se expandem, e o vento, ao atravessar suas folhas, transforma o silêncio da mata em movimento. Ela não reclama da força que a curva, nem da chuva que a fustiga. Apenas permanece, aprendendo a resistir.
Na mata, porém, chega o homem. A árvore é ferida, cortada e transformada em sustento. Ainda assim, antes de partir, oferece flores, frutos e sementes, deixando na terra a promessa de uma nova vida.
Ela enfrenta os ventos e, silenciosamente, contribui para o equilíbrio da natureza. Oferece ar, sombra, abrigo, alimento e, de tantas maneiras, participa da vida que nos cerca.
Mas o homem, muitas vezes, deixa de observar os animais. Eles são reveladores. Seus movimentos anunciam a harmonia ou o perigo; sua alegria revela a saúde da mata; seu medo denuncia a presença daquele que, tantas vezes, chega sem perceber que também depende daquilo que destrói.
A madeira serve de abrigo e cumpre sua missão em silêncio. O homem, porém, quebra esse silêncio com o martelo, com a serra e com a ambição. Constrói, mas também destrói. Retira da natureza aquilo que lhe sustenta e, muitas vezes, sem perceber, semeia a escassez de amanhã.
Há quem receba aplausos, prêmios e reconhecimento, mas não consiga contemplar o silêncio. Escuta tanto a própria voz que já não percebe o chamado da natureza. Convence outros a segui-lo, enquanto a mata, silenciosamente, parece pedir apenas uma coisa: que o homem aprenda a ouvir.
A madeira possui uma sabedoria que não precisa de voz. Seus anéis contam histórias; suas marcas revelam o tempo; suas raízes testemunham a permanência. Ela parece escrever, em silêncio, antigos mandamentos para a humanidade. Mas o homem não ouve.
A madeira abandonada apodrece, assim como também pode apodrecer aquilo que há de essencial no ser humano quando ele deixa de cultivar seus princípios.
A madeira conservada transforma-se em memória.
A madeira viva representa a própria vida.
A madeira em pedaços pode lembrar o homem destruído, que já não encontra forças para se reconstruir.
A madeira reaproveitada simboliza princípios que ainda podem ser resgatados.
E a madeira queimada transforma-se em cinzas, como o ser humano que consome a si mesmo naquilo que escolheu destruir.
Então, a mata silencia.
A madeira apodrece.
A chuva deixa de cair.
Os animais desaparecem.
A vida, pouco a pouco, perde seu lugar.
E talvez, quando o homem finalmente perceber o que fez, já não haja madeira suficiente para lhe ensinar novamente.
Porque a madeira nunca precisou falar para ensinar.
Nós é que precisamos aprender a escutar.
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