sábado, 31 de janeiro de 2026

 


 


 


 


A Pressa de Viver /Carmen Regina Teixeira de Quadros

Janeiro chegou ao fim, e mais uma vez surgiram os comentários sobre como o mês pareceu interminável. Mas por que tanta pressa para que o tempo passe? Por que essa ansiedade constante em relação aos dias, como se estivéssemos sempre esperando algo melhor no futuro? Passamos o ano contando as horas para as férias, e quando elas chegam, lamentamos que passaram rápido demais.

O tempo, no entanto, é um mistério. Às vezes parece nos arrastar consigo, outras vezes voa sem que percebamos. Mario Quintana já nos alertava sobre essa cegueira cotidiana: “Quantas vezes, tal como o avozinho infeliz, os óculos procuramos, tendo-os na ponta do nariz.” Assim também vivemos em relação ao tempo e à felicidade. Muitas vezes, aquilo que tanto procuramos está bem diante de nós, mas seguimos distraídos, esperando algo grandioso, sem notar que o presente já é valioso.

Vivemos numa eterna contradição: queremos que o tempo corra quando estamos sobrecarregados, mas desejamos que ele desacelere nos instantes felizes. O tempo, no entanto, não obedece nossos anseios. Ele apenas flui. A sensação de que um mês se arrastou ou voou está mais ligada ao nosso estado de espírito do que ao relógio. Quando estamos preocupados, o tempo parece se estender. Já quando estamos felizes ou distraídos, ele passa rápido demais.

O mundo também mudou, e com ele nossa percepção do tempo. Antes, as pessoas caminhavam mais, viviam com menos pressa. Como as interações eram mais profundas, os encontros tinham mais significado. A infância parecia infinita, repleta de momentos simples, mas intensos. Brincávamos na rua sem olhar para o relógio, cada tarde tinha o tamanho de uma aventura, e as férias pareciam durar para sempre. Havia menos distrações tecnológicas e mais tempo para a imaginação. Pequenos detalhes, como observar as nuvens ou ouvir histórias contadas pelos avós, tinham um peso maior. Hoje, tudo se tornou instantâneo. A pressa em consumir informações e a necessidade de estar sempre atualizado criam a sensação de que o tempo escorre pelos dedos. Mas será que ele realmente passou mais rápido ou fomos nós que deixamos de vivê-lo com plenitude?

Além disso, aprendemos a associar o tempo à produtividade. A ideia de que “tempo é dinheiro” nos fez encarar as horas como um recurso a ser explorado ao máximo. Vivemos pressionados a fazer mais em menos tempo, a sermos multitarefas, a justificar cada minuto com alguma atividade útil. Se não estamos produzindo, surge a sensação de desperdício, quando, na verdade, podemos estar simplesmente vivendo. Medir o tempo apenas pelo que produzimos nos afasta do que realmente importa.

Talvez a solução esteja em desacelerar e enxergar a beleza do agora. O tempo sempre terá a mesma velocidade — quem muda somos nós e o que fazemos com ele.