Alvales 2024 Academia Literária
sábado, 31 de janeiro de 2026
A Pressa de Viver /Carmen Regina Teixeira de Quadros
Janeiro chegou ao fim, e mais uma vez surgiram os
comentários sobre como o mês pareceu interminável. Mas por que tanta pressa
para que o tempo passe? Por que essa ansiedade constante em relação aos dias,
como se estivéssemos sempre esperando algo melhor no futuro? Passamos o ano
contando as horas para as férias, e quando elas chegam, lamentamos que passaram
rápido demais.
O tempo, no entanto, é um mistério. Às vezes
parece nos arrastar consigo, outras vezes voa sem que percebamos. Mario
Quintana já nos alertava sobre essa cegueira cotidiana: “Quantas vezes, tal
como o avozinho infeliz, os óculos procuramos, tendo-os na ponta do nariz.”
Assim também vivemos em relação ao tempo e à felicidade. Muitas vezes, aquilo
que tanto procuramos está bem diante de nós, mas seguimos distraídos, esperando
algo grandioso, sem notar que o presente já é valioso.
Vivemos numa eterna contradição: queremos que o
tempo corra quando estamos sobrecarregados, mas desejamos que ele desacelere
nos instantes felizes. O tempo, no entanto, não obedece nossos anseios. Ele
apenas flui. A sensação de que um mês se arrastou ou voou está mais ligada ao
nosso estado de espírito do que ao relógio. Quando estamos preocupados, o tempo
parece se estender. Já quando estamos felizes ou distraídos, ele passa rápido demais.
O mundo também mudou, e com ele nossa percepção
do tempo. Antes, as pessoas caminhavam mais, viviam com menos pressa. Como as
interações eram mais profundas, os encontros tinham mais significado. A
infância parecia infinita, repleta de momentos simples, mas intensos.
Brincávamos na rua sem olhar para o relógio, cada tarde tinha o tamanho de uma
aventura, e as férias pareciam durar para sempre. Havia menos distrações
tecnológicas e mais tempo para a imaginação. Pequenos detalhes, como observar
as nuvens ou ouvir histórias contadas pelos avós, tinham um peso maior. Hoje, tudo se tornou instantâneo. A pressa em consumir
informações e a necessidade de estar sempre atualizado criam a sensação de que
o tempo escorre pelos dedos. Mas será que ele realmente passou mais rápido ou
fomos nós que deixamos de vivê-lo com plenitude?
Além disso, aprendemos a associar o tempo à
produtividade. A ideia de que “tempo é dinheiro” nos fez encarar as horas como
um recurso a ser explorado ao máximo. Vivemos pressionados a fazer mais em
menos tempo, a sermos multitarefas, a justificar cada minuto com alguma
atividade útil. Se não estamos produzindo, surge a sensação de desperdício,
quando, na verdade, podemos estar simplesmente vivendo. Medir o tempo apenas
pelo que produzimos nos afasta do que realmente importa.
Talvez a solução esteja em desacelerar e enxergar
a beleza do agora. O tempo sempre terá a mesma velocidade — quem muda somos nós
e o que fazemos com ele.
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