UM DIÁLOGO TRANSCENDENTE
Na praça central, onde nada
extraordinário jamais acontecia, uma pedra de basalto surgira de repente. Alta,
irregular, pontiaguda em alguns trechos, achatada em outros — um corpo mineral
que parecia ter sido arrancado de um sonho geológico.
Um homem a observava com atenção,
como quem tenta decifrar um enigma.
— O que o senhor faz aí, diante
da minha pedra? — perguntou o dono, surgindo do nada, ofegante, como se
defendesse um altar.
— Estou a admirar este monstrengo
basáltico e a conjecturar como ele veio parar aqui.
— Eu a trouxe. E é minha.
O observador arqueou as
sobrancelhas.
— Bem… para que não enfeiasse
tanto a praça, poderia limpar ao redor, plantar uma gramínea, umas flores…
— O senhor ficou louco. Ela não é
um túmulo.
— Não parece mesmo. É tão
irregular… tem boa estatura… lembra um Frankenstein.
— Frankenstein!!! Chamando minha
pedra de Frankenstein… o senhor não tem gosto algum.
— Mas parece.
— Não parece.
— Parece.
O dono respirou fundo, como quem
tenta manter a dignidade diante de um insulto mineral.
— Vamos fazer um acordo — disse o
observador. — O senhor me dá metade da pedra e eu não a chamo mais de
Frankenstein.
— Orate! Jamais lhe darei um
centímetro sequer da minha pedra.
— Se não me der a metade, vou
tomá-la toda.
— Nunca. A pedra é minha.
— Quando o senhor a achou?
— Não achei. Coloquei aí.
— Usou um guindaste?
— Louco você é. Não conhece a
teoria das pirâmides? Cada pedra no seu lugar, encaixando bem na outra, até as
alturas.
— Claro que conheço.
— Então.
O observador suspirou.
— Tá certo… mas poderia me dar a
metade desse Frankenstein.
— Frankenstein na sua cabeça.
Saia da superfície. Penetre na alma desse ser. Veja sua beleza interior. Aja
como Miguel Ângelo: diante de um mármore disforme, vislumbrou David lá dentro e
o libertou.
— Ah, mas era um belo mármore…
não esse basalto obscuro, sem brilho e cor horrenda.
— Cor horrenda! Se Miguel Ângelo
estivesse aqui, enxergaria algum mistério dentro dessa pedra.
— Vamos… dê-me a metade.
— Não dou. Acha minha pedra horrenda,
mas a quer. Você é um atentado. Parece Santo Antônio lutando contra demônios no
deserto.
As pessoas passavam pela praça
sem olhar para o basalto.
O dono da pedra ergueu o queixo,
ferido:
— Insensíveis. Nada mais que
insensíveis.
E ficou ali, guardando sua pedra
como quem guarda um segredo que ninguém mais merece.
Ficha mínima para publicação
Título: Um Diálogo Transcendente Autor:
Ivanio Gênero: Microconto / Ficção simbólica Temas: percepção,
transcendência, humor metafísico, conflito de visões Extensão: 2 páginas
Direitos: © Ivanio — todos os direitos reservados
Nenhum comentário:
Postar um comentário