segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 



UM DIÁLOGO TRANSCENDENTE

Na praça central, onde nada extraordinário jamais acontecia, uma pedra de basalto surgira de repente. Alta, irregular, pontiaguda em alguns trechos, achatada em outros — um corpo mineral que parecia ter sido arrancado de um sonho geológico.

Um homem a observava com atenção, como quem tenta decifrar um enigma.

— O que o senhor faz aí, diante da minha pedra? — perguntou o dono, surgindo do nada, ofegante, como se defendesse um altar.

— Estou a admirar este monstrengo basáltico e a conjecturar como ele veio parar aqui.

— Eu a trouxe. E é minha.

O observador arqueou as sobrancelhas.

— Bem… para que não enfeiasse tanto a praça, poderia limpar ao redor, plantar uma gramínea, umas flores…

— O senhor ficou louco. Ela não é um túmulo.

— Não parece mesmo. É tão irregular… tem boa estatura… lembra um Frankenstein.

— Frankenstein!!! Chamando minha pedra de Frankenstein… o senhor não tem gosto algum.

— Mas parece.

— Não parece.

— Parece.

O dono respirou fundo, como quem tenta manter a dignidade diante de um insulto mineral.

— Vamos fazer um acordo — disse o observador. — O senhor me dá metade da pedra e eu não a chamo mais de Frankenstein.

— Orate! Jamais lhe darei um centímetro sequer da minha pedra.

— Se não me der a metade, vou tomá-la toda.

— Nunca. A pedra é minha.

— Quando o senhor a achou?

— Não achei. Coloquei aí.

— Usou um guindaste?

— Louco você é. Não conhece a teoria das pirâmides? Cada pedra no seu lugar, encaixando bem na outra, até as alturas.

— Claro que conheço.

— Então.

O observador suspirou.

— Tá certo… mas poderia me dar a metade desse Frankenstein.

— Frankenstein na sua cabeça. Saia da superfície. Penetre na alma desse ser. Veja sua beleza interior. Aja como Miguel Ângelo: diante de um mármore disforme, vislumbrou David lá dentro e o libertou.

— Ah, mas era um belo mármore… não esse basalto obscuro, sem brilho e cor horrenda.

— Cor horrenda! Se Miguel Ângelo estivesse aqui, enxergaria algum mistério dentro dessa pedra.

— Vamos… dê-me a metade.

— Não dou. Acha minha pedra horrenda, mas a quer. Você é um atentado. Parece Santo Antônio lutando contra demônios no deserto.

As pessoas passavam pela praça sem olhar para o basalto.

O dono da pedra ergueu o queixo, ferido:

— Insensíveis. Nada mais que insensíveis.

E ficou ali, guardando sua pedra como quem guarda um segredo que ninguém mais merece.

Ficha mínima para publicação

Título: Um Diálogo Transcendente Autor: Ivanio Gênero: Microconto / Ficção simbólica Temas: percepção, transcendência, humor metafísico, conflito de visões Extensão: 2 páginas Direitos: © Ivanio — todos os direitos reservados

 

 


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