BOLO QUEIMADO / Celso Ferruda
Já faz algum tempo, quando meus filhos ainda eram muito pequenos, por volta das duas horas da manhã, resolvi fazer um bolo e coloquei no forno. É certo que já estava cansado do trabalho, toda a rotina da casa para enfrentar, ainda tentei agradar meus filhos fazendo um bolo de chocolate caseiro... Mas me atrevi a deitar um pouco, enquanto o bolo estivesse assando, para descansar meu corpo...
Tinha planos para que o levassem um pedaço para a escola ao amanhecer, para fazerem seu lanche, mas o sono não me poupou, e algumas horas apaguei e dormi... Imaginei então, num pulo da cama: - meu bolo deve estar quase pronto, já estou sentindo seu cheiro, vou levantar e desligar o fogo para não queimar... Pronto! Já era tarde...
Pensei: Quantos pais queimam o bolo em suas casas, no descaso com seus filhos? Quantos adormecem na vida sem fazer algo que possa ser útil à humanidade? Somos seres que, mesmo cansados, ainda temos a capacidade de raciocinar e pensar um pouco... Mas por que criamos um filho com tanto carinho, assim como um bolo de chocolate, depois não somos capazes de cuidar da fermentação, dosar o calor, o companheirismo e o deixamos queimar-se, perdendo o gosto de ouvi-lo com a mesma pureza, com a mesma sanidade de um bolo assado no ponto?
Minha casa tomou-se de fumaça, quando abri a porta do forno. Mas não impediu que a forma estivesse em minhas mãos. Não impediu que retirasse aquele bolo, tirasse desta forma tudo aquilo de horrível que fora deixado com a queima, e que pude perceber neste, meditando... Pude perceber igual a um filho, tomado pelo fogo dos descuidos, poderia ver minha casa em chamas, ficar sem roupas, queimar a mim, e na tentativa de salvá-los, dar o pulo da cama da qual estaria dormindo, e já ser tarde demais.
É ilusão dizer que tudo posso!.. Meu corpo necessita de descanso, de alimentação, de tratamento, de cuidados... A mesma chama que queimou o bolo não pode queimar sentimentos... por que ao acordar as crianças imediatamente em sua pureza, pediram um pedaço de bolo em seu café. Qual seria minha reação se não tivesse um mercadinho de bairro perto de casa? Não teria queimado o desejo dos meus filhos, de comer aquele bolo de chocolate feito enquanto eles se preparavam para deitar e descansar para o dia seguinte ir na escola?...
Muitas vezes queremos agradar. Queremos fazer o melhor possível, mas surgem os problemas e nos impedem. Queimamos energias desnecessárias, e perdemos tempo de abraçar, de dar carinho, de dar atenção a nossos filhos... E assim o tempo passa. E com ele tudo se vai. Fica o melhor que de bem fizemos. O bolo queimou, não faz tanta diferença. O que faz a diferença é você tentar, você cuidar, achar alternativas para que não fique um vazio, nem vire tudo fumaça a sua volta e ofusque os olhares, daqueles que querem lhe ver bem, nem de você ao bem que o mundo necessita.
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