Da Adaptação à Colaboração: Um Caminho para a Evolução Humana
"Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças." Essa afirmação foi cunhada pelo professor e escritor norte-americano Leon C. Megginson em 1963 ao interpretar a Teoria da Evolução e do conceito de "Seleção Natural" de Darwin. Mas e se fôssemos além da adaptação e complementássemos essa teoria?
Poderíamos dizer que os grupos humanos — e até mesmo as espécies do reino animal e vegetal — que perduram, são aqueles que desenvolvem a capacidade de colaborar. Isso porque, apesar do individualismo crescente entre os humanos, dependemos uns dos outros desde o nascimento. Vivemos em comunidade para nos proteger, aprender, compartilhar recursos e evoluir. Sendo assim, a colaboração vai além da escolha ética; ela é uma estratégia de sobrevivência presente na própria natureza.
Nessa convivência, crescemos, sobrevivemos e, enquanto seres humanos, nos desenvolvemos não apenas como espécie, mas também como indivíduos. Por isso, gosto muito de uma frase que diz: “O maior desperdício não é o de água, mas o de potencial humano.” E ele é desperdiçado, posso afirmar, em grande parte pela falta de colaboração que, se fosse mais abundante no mundo, poderia, além de oferecer condições mínimas de existência, proporcionar uma organização social mais justa, onde oportunidades, recursos e reconhecimentos fossem mais bem distribuídos. Com a cooperação ocupando o lugar da competição, teríamos menos guerras, menos pessoas morrendo de fome, etc.
Imersos neste contexto, seguimos lutando para sobreviver, muitos e muitos em busca do mínimo - e um pequeno grupo, do excesso. O paradoxo é que esses últimos procuram sentido para a vida por meio da aquisição de produtos que prometem felicidade, mas que, na verdade, são superficialidades alimentadas pelos excessos; ou seja, tentativas de preencher vazios que não podem ser ocupados por bens materiais e que revelam carências muito mais profundas: de pertencimento, propósito, conexão e humanidade.
Não só de consumo material, existe também um excesso de imagens e palavras (informações) que sobrecarrega a todos nós. O grande escritor Mia Couto nos alerta que essa sobrecarga nos anestesia e nos desconecta de nós mesmos, levando a um estado em que perdemos a capacidade de escutar o outro e de sentir o mundo. Em resumo: o excesso acaba fazendo a nossa vida perder o “sentido”.
Em um diálogo com meu ex-professor de Filosofia, Claiton Pokorski, hoje neuropsicanalista e terapeuta integrativo, debatemos sobre o desafio crescente das pessoas em realmente se relacionar. Existe uma dificuldade de, nas palavras dele, “olhar nos olhos do outro, de conversar, de dar espaço, de ouvir de verdade, sem interromper...” No bate-papo, ele destacou, ainda, a importância da escuta ativa a fim de gerar pertencimento ao ser escutado e de ser validado pelo olhar do outro, não no sentido de concordar, mas de fazer a pessoa se sentir vista, percebida.
Nas redes sociais e no dia a dia, todos falam e todos se mostram, mas poucos observam e escutam de verdade. Já virou clichê dizer isso, mas, de fato, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes.
Com base nisso, tenho a impressão de que precisamos fazer o caminho de volta. Que fique claro: isso não significa negar a tecnologia, a modernidade ou as novas formas de comunicação, mas fazer com que, apesar das ferramentas existentes, voltemos a escutar, a colaborar, como faziam as comunidades na época do escambo, em que a sobrevivência estava diretamente ligada à capacidade de troca por meio da qual cada pessoa tinha algo que outra necessitava.
Portanto, considerando a necessidade que se tem de ser escutado e visto, talvez, o simples fato de escutar com presença já seja uma demonstração de colaboração que, sem dúvida, dá sentido à existência, salva vidas e, portanto, contribui com a evolução de indivíduos e da espécie humana.
Patrícia Pedrozo
Jornalista e agente de viagens
MTB 0020373/RS
Mais uma excelente reflexão da jovem escritora Patrícia Pedroso. Desta vez chama a nossa atenção para a importância vital da colaboração entre os indivíduos e do desenvolvimento da nossa capacidade em "se importar" com os outros.
ResponderExcluirParabéns!
Ótimo artigo, estamos perdendo muito com o individualismo exagerado.
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