Meu pai / Sid Fontoura
Julho, 1970.O frio estava congelante, creio que estava em 4 ou 5 graus a temperatura, era final de tarde, e o vento deixava a temperatura ainda mais baixa. Subi as escadas que levavam ao segundo andar, e entrei no apartamento de meu pai, eu tinha uma cópia da chave. Chamei pelo seu nome, mas ele não atendeu, então fui até a cozinha e deixei sobre a mesa a sacola com as compras que trouxera, café, açúcar, chá e alguns biscoitos. Chamei novamente, mas ainda sem resposta, procurei no apartamento mas ele não estava. Era estranho, porque ele nunca saía sozinho a rua, mesmo assim, desci as escadas apressadamente e fui até a porta do prédio, olhei para todos os lados, quem sabe ele havia saído, mas não o encontrei. Então prossegui pela entrada lateral, passando pelas gangorras e balanços que haviam na velha pracinha, e no fundo, sentado em um banco, estava ele, um cachecol enrolado no pescoço, em velho casaco de lã, uma calça social escura e chinelos pantufa. Tremia de frio, encolhido recostado ao banco, com o olhar perdido no horizonte, não percebeu minha chegada. O Alzheimer ficava mais evidente a cada dia.Se realmente nosso coração pode chorar, naquele momento o meu coração chorava copiosamente, uma tristeza profunda, acompanhada de remorso, me corroíam por dentro. Meu velho pai, que certamente, mais de uma vez abraçou-me para proteger-me do frio, agora suportava um frio intenso sem ter quem o acalentasse. Sentei-me ao seu lado, segurei suas mãos, que estavam quase congeladas, ele me olhou, sorriu, seus olhos se encheram de lágrimas, e disse: - Obrigado filho, eu estava esperando por você.
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